
Um ocasião o padeiro saiu prá fazer mais um curso e do nada, vendo-se livre dele, a esposa desabafou com o cliente, que não era feliz. Ele ouviu, opinou e ela passou a gostar de conversar com ele. Os assuntos passaram a ser os mais variados e um dia ele disse a ela, já tendo na mira o marido amassando o pão lá no fundo que a amava. Ela corou e gostou de saber que alguém se interessava por ela, mas não deixou passar disso. Ele era desimpedido e isso era tentação demais. Mas o tempo, alias muito tempo foi passando, e a situação em nada se alterou. Os sentimentos pareciam que as vezes esfriavam e algumas vezes enlouqueciam. Mas o platonismo imperava firme e alem de pães, trocos, olhares e desejos proibidos nada existia.
Mas em algumas ocasiões ocorreram possibilidades de em encontros casuais conversarem abertamente sobre sentimentos e possibilidades e ele, sempre se atirando muito mais na aventura, desejava que ela largasse tudo e fosse com ele descobrir o mundo. Mas ela tinha um senso de responsabilidade muito profundo e preservava não só os sentimentos dela como os de todos que a ela estavam ligados e de uma forma amiga, suave e triste dizia que nada era possível.
Ele enlouquecia a cada nova investida, mas um dia conversando com um estranho foi aconselhado a entender o que acontecia de verdade. Dizia o estranho que ele não gostava daquela mulher, mas que gostava da aventura da conquista daquela mulher, dos riscos, do ufanismo de corteja-la diante do ocupado marido sem que o ingênuo desse conta. Mas também que ele não era o dono daquela situação que era antes de tudo um escravo daquilo tudo. Ele passou então a refletir sobre qual era precisamente o sentimento que o envolvia e concluiu que gostava mesmo era da conquista. E que aquilo estava se tornando cada vez mais prazeroso na medida em que ia ficando cada vez mais difícil. Seus dias eram de treva e luz, mas ele não identificava naquilo paixão, era antes, gosto por algum desafio. Mas isso fazia com que ele jogasse sobre ela um monte de atenções e ela se derretia por isso.
Um dia, noutro encontro casual, ele declarou sua paixão por ela.
Ela não estava num bom momento e sentiu a força daquilo.
Confusa buscou as palavras certas.
E as únicas que lhe vieram a mente foram as mais sinceras e verdadeiras que tinha, e disse:
- Eu te amo!
Ele sorriu, viu que havia conseguido, deu-lhe as costas e nunca mais ela o viu.