sábado, 6 de março de 2010

DORA.

- Dora... preciso falar com você.


- Ai, ...fala Dorival.


- Dora precisa ser em particular.


- De novo Dorival?


- Sim, é pela última vez.


- Tá bom... menina saia que eu preciso falar com o Dorival... Pronto agora fala Dorival.


- Dora quando eu tinha 8 anos pedi prá você me dar um beijo no rosto e você me negou alegando que tinha nojo de mim. Quando eu tinha 12 anos pedi prá você deixar eu passar as mãos em seus peitos e você riu na minha cara. Quando eu tinha 16 anos pedi você em namoro e você perguntou se eu tinha bebido ou ficado louco. Quando eu tinha 19 anos comprei meu primeiro carro e convidei você para dar uma volta comigo nele e você virou as costas e nem me disse um não, desdenhou de minha Kombi. Quando eu fiz 25 anos construi meu primeiro quarto e cozinha e pedi sua mão em casamento, você deu queixa na delegacia e eu tive que me explicar ao delegado. Quando recebi minha primeira promoção aos 27 anos para auxiliar adminsitrativo te convidei para jantar comigo e depois para ir a um motel e você falou na frente de todo mundo que não porque você achava que eu tinha mau gosto e pinto pequeno. Quando comprei meu primeiro apartamento e fiz uma suite com cama redonda e espelho no teto convidei você para estrear a cama comigo e você chamou a ambulância do sanatório pra me levar e eu tive que fugir por uma semana. Pois bem Dora... ontem eu fui na casa de sua irmã trocar a borrachinha da torneira da pia da cozinha que estava pingando muito e aumentando a conta de água dela.
- Nossa... que interessante. Era isso a coisa importante que você tinha para me falar?
- Sim... e depois que eu troquei a borrachinha eu comi sua irmã.
- ???
- Foi péssimo. Ela é ruim de cama, tem o sovaco peludo, mau hálito, tem uma voz irritante, só fala merda, não sabe fazer uma posição direito, reclama de tudo, interrompe a toda hora para ir beber água, comer banana, olhar se tem alguma coisa acontecendo na rua, acende a luz, apaga a luz, arruma o lençol da cama, afofa o travesseiro, para pra rezar, pinga remédio no nariz e vai ao banheiro toda hora pentear o cabelo e fazer xixi. Foi traumático. Mas depois do sexo eu coloquei reparo nela e comparei com você. Em todos os pontos você é pior que ela, você é só dez anos mais velha que ela mas parece ser a avó dela.
- Verme... saia daqui agora.
- Mas eu quero só fazer uma última pergunta então.
- Faça e saia...
- Dora, você me ama?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UM E OUTRO

A desavença começou do nada e durou muito tempo, durante o mesmo tempo que um provocava o outro e o outro sentia o sangue borbulhar dentro de si, mas foi segurando e alimentando a vontade de se vingar, um dia, lá na frente, depois de tudo esfriar para não demonstrar o sentimento e não deixar provas da culpa.
Mas não foi assim.
Um morreu de morte natural precocemente, morreu durante o sono e o outro ferveu de vez.
Sentiu-se traído pelo destino, fora-lhe tirada a chance de arrancar de dentro de si o monstro que o comia por dentro todo aquele tempo. Ele não poderia morrer senão por sua mãos e na hora que ele assim quisesse. Ficou cego, transtornado e armou-se.
No meio da noite entrou no velório, aproximou-se do corpo, sacou a arma e deu 5 tiros na cabeça do defunto.
Olhou para a mãe do morto e disse:
- Desculpe os modos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O ROCHEDO.

Ele era esquesitão e adorava ficar isolado e solitário.

CAPITULO I - A Revelação.
Sua irmã se chamava Nadir e ele Zenite. Seu pai gostava de astronomia e ele herdou toda a carga de curiosidade do pai, mas um dia teve uma visão e compreendeu coisas que nenhum outro ser humano havia compreendido. Para ele o metodo foi apenas o de juntar um mais um e chegar a conclusão que o resultado era igual a dois. Rapidamente anotou sua percepção inédita da realidade e concluiu que a raça humana havia caminhado em direção errada por muitos séculos na maneira de tentar desvendar os segredos do universo. Estava na mão dele, duas folhas de papel bastaram para sintetizar alguns milénios de queimadas de mufas em busca da compreenção que ele e somente ele agora havia desvendado.
Neste dia caminhou tranquilamente para casa com as folhas no bolso e chegando em sua casa tomou um delicioso prato de sopa. Sua mãe estranhou a cara do garotão, aquele ar de felicidade sem muito sentido, mas julgou que ele havia finalmente perdido a virgindade e até sentiu um certo alívio por não ter mais que se preocupar com o bobalhão.
No dia seguinte ele escreveu a um laboratório de astronomia cujo endereço consegui numa revista ciêntifica velha que tinha. Escreveu de forma sintética e despretenciosa, julgou que não seria lido, mas menos de uma semana depois um carro enorme para em frente a sua casa e três homens muito estranhos batem à porta.
- Por favor queremos falar com o Sr. Zenite.
Alguns minutos depois ele saindo do banheiro, meio desarrumado e sem lavar as mãos atende aos homens sentado numas poltronas de vime que ficavam na varanda ao lado da entrada.
- Qual seu nome garoto?
- Zenite.
- Não, qual seu nome de verdade, não seu pseudonimo?
- Zenite é meu nome de verdade senhor, e minha irmã se chama Nadir.
Os homens se olharam e acharam aquilo tudo muito clichet demais.
- Onde você leu as coisas que nos escreveu?
- Eu mesmo conclui quando estava sentado na ponta de um rochedo, querem que eu mostre o rochedo?
- Não, não é preciso, depois podemos ver o rochedo. Mas você quer dizer então que concluiu isso tudo que escreveu por deduções próprias?
- É, eu tava muito sem ter o que fazer naquele dia...
- Você sabe que oque escreveu não só faz todo o sentido, esclarece quase todas as duvidas que temos a milenios no campo das mais variadas ciências como transforma Einstein numa mula estupida e cretina? Você acaba de riscar o nome da Einstein da história.
- Bem, ..desculpem senhores não era essa minha intenção...
- Foda-se Eisntein, você revolucionou o mundo, alguém mais leu seus escritos?
- Não senhor...
- Tem certeza, não comentou isso com ninguém?
- Ah sim, comentar eu comentei...
- Comentou é? E com quem você comentou isso?
- Com a Tia Zulmira.
- E quem é Tia Zulmira?
- Ela é minha tia.
- Bem, vamos tentar de outra maneira... Sabe que você acaba de danificar e acabar com a vida de todo mundo que vive de pesquisar nos campos da fisica, astronomia, engenharia quantica, engenharia nuclear... enfim, todos estamos agora classificados como mulas estupidas diante de um garoto que se chama Zenite e que descobriu sentado num rochedo aquilo de milhões de cerebros privilegiados e bem pagos nunca conseguiram descobrir... com isso virá o caos, o apocalipse da ciência, chamamos esta operação de Operação Revelação, e você é o pivot disso tudo, por isso receberá um tratamento especial para não neste momento, mas quando, e apenas quando for oportuno revelar ao mundo sua descoberta... mas temos que nos garatir disto, portanto nos diga, a Tia Zulmira deve ser uma tia velha que não deu bola e nem entendeu nada do que você disse a ela não é?
- Não senhor, ela entendeu tudinho, ficou muito admirada e conversamos horas sobre isso, ela disse que não via a hora de contar isso prás amigas dela.
- E quando foi que vocês conversaram horas sobre isso?
- Quando eu levei ela de ônibus até Pederneiras onde ela mora.
- Ah, a sua Tia Zulmira mora em Pederneiras, e gosta de contar as novidades para as amigas?
- Sim a Tia é uma mulher muito atualizada, fica sabendo de tudo na hora que acontece e adora ficar na janela pela manhã contando as novas para as pessoas que passam.
- E onde exatamente de Pederneiras ela mora?
- Bem no centro...
- Basta, você nos acompanhe... general mande seus melhores homens falar com a adoravel Tia Zulmira em Pederneiras!

CAPITULO II - Tia Zulmira.
O general escolheu 5 bons rapazes e os mandou numa missão bastante simples capturar, calar e trazer a Tia Zulmira que morava bem no centro de Pederneiras.
Foram em duas viaturas enormes e ao entrarem na cidade a cidade parou.
- Ei garoto você conhece a Tia Zulmira?
- Aquela que descobriu que o mundo...
- Sim esta mesmo!
- Numa casa amarelo canário bem no centro da cidade.
A casa gritava no meio da cidade, impossível não ve-la, e na janela Tia Zulmira falando sem parar para pelos menos umas três outras Tias de bobs no cabelo, vassouras nas mãos ou sacolas de supermercado.
O carrão parou e um dos rapazes foi até a porta de entrada, passando sem cerimônia ou respeito pelo portãozinho de ferro, transpondo o gracioso jardim e abrindo, não, quase arrancando a porta de tela. O rapaz em questão usava terno preto e óculos escuros, era loiro com cabelo escovinha, tinha 2,10 metros de altura e pesava entre 150 e 180 kilos. Tia Zulmira abriu a porta e antes do rapaz pensar em dizer "Boa Tarde" foi acertado no saco, em cheio, por uma panela de ferro, deu um gemido seco e caiu desmaido.
- Seu chupa cabra fio de uma puta... cê entrô no meu quintar acha que tá podeno?
Os outro quatro rapazes se posicionaram com pistolas automáricas e duas metralhadoras.
Um que estava agachado em posição de pronto e mortal ataque levou um cabo de vassouras na nuca e ao se mover para trás para ver o que acontecia, vie então senhora mirradinha, usando chinelos e meias furadas nos calcanhares que lhe deu uma joelhada no nariz e quebrou-o na mesma hora, ele ficou completamente tonto e caiu no chão asfixiado.
Dois foram pelos fundos, um deles foi atacado por um pequinez vesgo e de olhos muito saltados foi recuando de costas até conseguir entrar numa latrina de madeira no fundo do quintal, seu peso era muito para aquela construção e as madeiras do piso já estavam bem podres, tudo desabou e ele afundou com seus 2,07 metros e 135 kilos em 47 anos de bostas ali depositadas. Mas o azar maior foi que ao cair disparou sua arma e a sentelha fez explodir o gas metano ali acumulando fazendo chover bosta por 5 quarteirões de Pederneiras.
O segundo teve menos sorte, Tia Zulmira convencido de que era um chupa cabra que se multiplicava a cada porrada que levava, atirou sobre ele um ferro de passar roupas daqueles em que se usavam brasas. Obviamente Tia Zulmira não passava mais roupas com ele desde que comprara uma a vapor nas Casas Bahia, usando-o apenas para calçar a porta.
O ferro bateu de bico na testa do moço, partiu o óculos em dois e fraturou o crânio dele.
O quinto elemento gritou de cima da goiabeira onde conseguiu subir ( era uma goiabeira ridícula de um metro e meio de altura, mas para aqueles rapazes as proporções haviam perdido todos os sentidos em Pederneiras ):
- Tia Zulmira, preciso dialogar com a senhora.
- Ara seu chupa cabra fio da puta, se oceis só queria conversá purque num falaro logo. Vem cá que eu vou passar um cafezinho...

FINAL
Tia Zulmira ouviu atentamente o que o rapaz lhe falou enquanto o resgate removia os outro 4 rapazes de helicópito para o Hospital de Clinicas, e concordou em guardar segredo sobre o assunto todo que Zenite lhe havia contado, ou que deveria fantasiar tanto que as pessoas passariam a julgar aquilo uma história muito alucinada e incredula. Comeram metade de um bolo de mandioca e tomaram o café mais gostoso que o rapaz já havia provado na vida. A outra metade ela embrulhou e ele levou para casa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
1) Zenite trabalhou como office boy de um laboratório de astro-fisica durante toda sua vida. Nunca foi promovido e sempre ganhou mais que o diretor geral.
2) Varios cientistas ficaram horas e mais horas sentados no rochedo indicado por Zenite mas nunca fizeram nenhuma descoberta relevante, apenas: 5 tiveram insolação ou desidratação e um caiu.
3) O rapaz que levou a panelada no saco teve uma das bolas extraidas para evitar uma infecção generalizada.
4) O rapaz que teve o nariz quebrado processou a velhinha, mas numa das audiências no forun de Pederneiras conheceu a filha da ré, se apaixonou por ela perdidamente e eles se casaram e tiveram lindos filhos, num Natal quando tentava ajudar a sogra com uma assadeira de pernil teve seu nariz novamente quebrado por ela em um lamentável acidente doméstico.
5) O rapaz que caiu na fossa abandonou a cerreira de agente e hoje trabalha como cabeleireiro em Dracena.
6) O rapaz que levou o ferro de passar roupas na testa recuperou-se bem depois de 3 anos de internação e numa das idas até o rochedo assegura ter descoberta o fórmula da coca-cola, montou uma fabrica de refirgerantes com o cunhado e faliu menos de um ano depois.
7) A goiabeira depois de tão bem adubada cresceu muito e ainda produz deliciosas goiabas brancas que são a alegria dos sobrinhos de Tia Zulmira, goiabas brancas são as melhores porque nunca conseguimos ver os bichos.
8) Depois da morte de Zenite um assitente de um cientista de 5º escalão descobriu uma falha grosseira na teoria que a invalidou completamente.
9) Tia Zulmira morreu sem deixar a receita do bolo de mandioca, mas nos anos todos que viveu nunca deixou de contar em detalhes a qualquer um que encontrasse a teoria do rochedo.
10) Zenite é o ponto vertical no céu que fica acima de sua cabeça, Nadir é o ponto vertical que fica baixo de seus pés, teoricamente o centro da terra ou o oposto de Zenite.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

DEUS NÃO QUER.

Dona Matilde atende ao portão. Nele um senhor com uma caixa de madeira com algumas ferramentas.
- Ainda bem que o Sr. chegou, eu já estava bastante preocupada.
- Boa tarde Dona Matilde, fique calma que eu vim pra ajudar a senhora. Deus abençoe a senhora.
- Venha por aqui e veja por favor.
Foram aos fundos da casa onde a cobertura com telhas de plástico e estrutura metálica havia despencado parcialmente da parede.
- Que coisa Dona Matilde, como isso foi acontecer? Um trabalho tão bem realizado, uma estrutura tão forte.
- Pois é, foi o vento desta madrugada.
- A senhora quer dizer que foi o vento desta madrugada que arrancou seu telhado?
- Sim foi, ai que susto que levamos.
- Pois então eu não posso consertar.
- Como assim não pode?
- É que se foi o vento, é porque é a vontade de Deus que o telhado caia e eu não contrario a vontade de Deus.
- Não, o senhor não esta entendendo, foi apenas um acidente natural, o vento sempre arranca as coisas do lugar, faça o favor, coloque isso tudo no devido lugar que eu alem de lhe pagar lhe dou uma gorjeta.
- Nem quero saber desse dinheiro... nunca, jamais irei contrariar a vontade de Deus.
- Mas não tem a vontade de Deus nisso aqui, foi apenas o vento...
- Não Dona Matilde, o vento é uma criação de Deus, ele atua sobre aquilo que Deus determina, e se Deus escolheu seu telhado pra ir ao chão eu não posso modificar a intenção Dele.
- Esta bem chega de brincadeira, vamos colocar isso logo no lugar antes que chova.
- Não com a minha ajuda ou interferência.
- O senhor já esta me tirando do sério.
- Deus não quer, eu não faço.
Pegou a caixa de ferramentas e foi embora.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

TATTO

Eliseu sempre desenhou muito bem e um dia fez um curso de tatuador. Comprou um equipamento baratinho de segunda mão lá mesmo na Galeria do Rock, mas não encontrou nenhum voluntário para nele praticar.
Mamãe pediu prá Eliseu fazer um favor, meio que obrigação mesmo.
- Zizinho, larga de ser vagau e leva esta cesta básica prá Tia Cristina.
- Ah não mãe... a tia mora lá na casa do caralho e tem uma puta ladeira prá subir depois do ponto final do onibus... vou não!
- Zizinho, tá aqui o dinheiro prô onibus, vai logo não enrola e vê se não assusta ela, cê tem cara de bandido filho. E óh seu anormal, se não chega lá falando palavrão. Vaza!
Eliseu saiu debaixo de um puta sol com a cesta básica no ombro, humilhado e com vontade de jogar a cesta num terreno baldio, mas não fez, sabia que era zica não entregar a cesta na casa da tia. Tomou o onibus e não tinha lugar prá sentar, desceu no ponto final e encarou a ladeira:
- Orra que essa porrrrrrra não acaba!
Parou na porta do prédinho, e agora, qual era mesmo o numero do apartamento dela?
Fazia quinze séculos que ela não vinha aqui, ele odiava aquela tia que fedia e era muito doida.
Que fazia ele comer aquele bolo nojento, mofado e com gosto de bunda.
Encontrou um moleque no corredor do segundo andar e perguntou:
- Oh mané, onde mora a Tia Cristina?
- Num tenhu ninhuma Tia Cristina nóia do caraiu!!!
- Vai te foder vacilão....
Bateu na porta que estava mais próxima, saiu um coroa de camiseta furada e encardida e perguntou:
- Fala gordão, que cê tá querendo aqui? Não comprei essa merda de cesta...
- É prá tia Cristina.
- É noutro bloco o balofo burro...
Virou as costas e entrou no outro bloco, bateu na primeira porta que achou no segundo andar e ouviu:
- Entra!
Ele entrou e viu a tia Cristina sentadinha no sofá lendo uma revista de cabeça prá baixo. Meu, ela era feia prá cacete, tinha a pele muito branca, acho que nunca tinha tomado sol na vida.
- Tia tá aqui a cesta básica...
- Coloca na cozinha... você é quem... é filho da... coloca na cozinha.
Ele colocou a cesta na cozinha e viu sobre a mesa mais de metade de um bolo mofado com gosto de bunda. Sentiu um puta nojo.
- indo...
- Quanto é?
- nada não...
Olhou prá ela e notou aquela pele branca. Um, curto circuito em seu cérebro maliguino deu a ideia:
"Tenho que tatuar essa velha!" Mas como? Como conseguir convence-la a deixar testar sua arte nela. Mas precisa convencer? E se eu dopar ela? Mas como dopar? Haroldo! O Haroldo da farmácia sabe, ele me ajuda!
- Tia , faltou uma parte da cesta que tava muito pesada, eu trago amanhã, pode ser?
- Claro amor, pega um pedaço de bolo...
- Quero não tia. Obrigado a senhora é muito gentil. Amanhã eu volto.
No dia seguinte ele pegou uma pacote de açúcar no armário de casa, seus equipamentos e tintas, alguns desenhos e passou na farmácia, falou com o Haroldo, aprendeu como fazer a coisa e tomou o onibus prá casa da tia.
Chegou lá mostrou o açúcar.
- Mas você veio até aquiprá trazer isso, que bom menino...
- Tia a senhora não quer uma água, uma chá, alguma coisa prá beber?
- Pode ser... me dá um cópo de leite...
E continuou lendo sua revista de cabeça prá baixo.
Naquele dia foi tudo muito fácil, e ele tatuou um escorpião com sombra no ombro dela, e durante o resto do mês fez vários outros pedaços e foi emendando tudo, nessa ele ficou 4 meses levando a cesta básica prá ninguém ir lá, dopando a tia quase todos os dias e já tinha tatuado ela inteirinha, incluindo todo o rosto, a bunda, os peitos e só livrou a sola dos pés porque mesmo ela dopada não parava quieta.
Animou-se e fez um curso de colocação de pierging e passou mais dois meses furando a velha e fazendo ela entrar pro Guinnes Book sem saber.
Numa manhã ele dormiu até mais tarde e quando acordou viu que era dia da cesta básica.
Levantou na boa foi ao banheiro e depois tomou café muito tranquilo, sua mãe veio da lavanderia e falou prá ele:
-Zizinho, hoje...
- Já sei mãe: é dia de levar a cesta básica prá tia...
- Não filho, hoje não precisa, seu pai tá de folga e já foi lá levar de carro!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

NUNCA DIGA EU TE AMO.

Ele havia mudado a alguns meses para o bairro mas nunca havia notado aquela pequena padaria com fachada de madeira escura que fazia pães especiais e pouco convencionais. Entrou timidamente pela primeira vez e foi atendido de forma desinteressada por uma mulher jovem que não ligou muito prá ele. A variedade de pães não era grande mas nada era igual aos produtos dos concorrentes, o padeiro era o próprio dono do estabelecimento e ele havia feito alguns cursos de especialização fora do país, a atendente era sua mulher que trabalhava em dupla jornada ali e em casa e por isso não tinha energia para ser simpática, mas não era alguém desagradável. Inevitavelmente, no entanto, ela aprendeu sobre os gostos do novo cliente e ele passou a receber um atendimento digamos: falicitador. Passou também a receber sugestões de consumo conforme o padeiro/dono/marido ia incrementando a variedade.
Um ocasião o padeiro saiu prá fazer mais um curso e do nada, vendo-se livre dele, a esposa desabafou com o cliente, que não era feliz. Ele ouviu, opinou e ela passou a gostar de conversar com ele. Os assuntos passaram a ser os mais variados e um dia ele disse a ela, já tendo na mira o marido amassando o pão lá no fundo que a amava. Ela corou e gostou de saber que alguém se interessava por ela, mas não deixou passar disso. Ele era desimpedido e isso era tentação demais. Mas o tempo, alias muito tempo foi passando, e a situação em nada se alterou. Os sentimentos pareciam que as vezes esfriavam e algumas vezes enlouqueciam. Mas o platonismo imperava firme e alem de pães, trocos, olhares e desejos proibidos nada existia.
Mas em algumas ocasiões ocorreram possibilidades de em encontros casuais conversarem abertamente sobre sentimentos e possibilidades e ele, sempre se atirando muito mais na aventura, desejava que ela largasse tudo e fosse com ele descobrir o mundo. Mas ela tinha um senso de responsabilidade muito profundo e preservava não só os sentimentos dela como os de todos que a ela estavam ligados e de uma forma amiga, suave e triste dizia que nada era possível.
Ele enlouquecia a cada nova investida, mas um dia conversando com um estranho foi aconselhado a entender o que acontecia de verdade. Dizia o estranho que ele não gostava daquela mulher, mas que gostava da aventura da conquista daquela mulher, dos riscos, do ufanismo de corteja-la diante do ocupado marido sem que o ingênuo desse conta. Mas também que ele não era o dono daquela situação que era antes de tudo um escravo daquilo tudo. Ele passou então a refletir sobre qual era precisamente o sentimento que o envolvia e concluiu que gostava mesmo era da conquista. E que aquilo estava se tornando cada vez mais prazeroso na medida em que ia ficando cada vez mais difícil. Seus dias eram de treva e luz, mas ele não identificava naquilo paixão, era antes, gosto por algum desafio. Mas isso fazia com que ele jogasse sobre ela um monte de atenções e ela se derretia por isso.
Um dia, noutro encontro casual, ele declarou sua paixão por ela.
Ela não estava num bom momento e sentiu a força daquilo.
Confusa buscou as palavras certas.
E as únicas que lhe vieram a mente foram as mais sinceras e verdadeiras que tinha, e disse:
- Eu te amo!
Ele sorriu, viu que havia conseguido, deu-lhe as costas e nunca mais ela o viu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OBRIGADO DOUTOR

Meu sonho sempre foi ser médico.
Embora na vida real tenha horror a médicos.
Consegui um avental de encarregado de setor de manutenção de veículos da marca Mitisubishi, bem limpo, e fui invadindo um enorme hospital publico.
Já na porta o segurança de terno preto me olhou e fez sinal para eu parar. Eu fui furioso na direção dele e disse:
-Como você tem a incompetência de estar trabalhando sem luvas descartáveis e mascara? Eu não te suspendo porque estamos com problemas na escala...
E fui entrando com cara de quem não estava gostando. Mas tinha ainda o problema da logomarca da Mitisubishi prá encobrir. Vi um médico também de roupa cinza hiper folgada vagando displicente cutucando o nariz pelo corredor e garfei o cara:
- Seu porco, dá aqui este crachá... vai prá casa agora, amanhã falamos!
Coloquei o crachá. Segui pelo corredor cheio de macas, uma vergonha.
Do bolso de meu avental retirei um pincel atomico vermelho e na testa de um velho que dormia numa maca escrevi OBITO.
Chamei um segurança com cara de sono e uniforme de vigilante de banco e falei:
-Leve agora para o necrotério.
Duas macas adiante outro paciente dormia profundamente. Despertei-o com tapinhas na cara e quando ele começou a acordar eu disse:
- Graças a Deus consegui ressuscitar você... você tem muita sorte, ficou mais de 1 hora morto!
Ele soltou lágrimas e disse:
-Obrigado Doutor!
Na testa deste escrevi OK, LIBERADO.
Avancei por outro corredor e vi que tinha jeito prá coisa, estava começando a gostar.
Vinha em minha direção uma enfermeira com cara de sonsa empurrando desmaseladamente um paciente numa cadeira de rodas. Parei-a.
- Onde você pensa que vai?
Ela tentou responder...
-Você sabia que eu posso acusa-la de tentativa de sequestro?
Ela começou a chorar compulsivamente.
Escrevi na testa do paciente: ACORRENTAR.
- Leve este paciente para o setor de manutenção e mande soldar correntes na cadeira de rodas para que nunca mais ninguém tente sequestra-lo! E prenda as correntes em algo pesado.
O paciente suava muito e a tinta começou a escorrer pelo nariz.
- Rápido... não vê que ele esta com hemorragia... vai, vai, vai...
E o paciente dizia ao longe:
- Obrigado doutor.
Na porta onde estava uma plaqueta que dizia algo sobre cardiologia não sei que lá, não lembro, risquei e escrevi: TRANSFERIDO PARA O 18º ANDAR. sala 1817
Sentei numa cadeira entre pessoas que estavam esperando e quando uma funcionária de uniforme azul chegou e perguntou para onde havia sido mudado a sala de exames todos responderam:
- 18º andar.
Ela saiu confusa falando baixinho:
- Mas este prédio só tem 4 andares.
Minha atuação já devia estar fazendo sucesso pois notei que havia algum movimento mais nervoso pelos corredores.
Entrei num elevador muito grande, nunca tinha entrado num tão grande assim.
Havia um sujeito mórbido levando um cadáver.
Olhei prá ele e dei um pequeno sorriso.
Ele permaneceu carrancudo.
Falei:
- Já tomou café?
-Ainda não.
-Chato ?
- O quê?
- Até essa hora sem café...
- E dai?
- Dai que você se quiser pode ir tomar café que eu cuido do presunto.
- Tá bom.
Ele saiu do elevador e eu desci com o elevador até o andar do estacionamento.
Andei uns 30 metros entre os carros e havia um carro lindo, preto, importado com bagageiro.
Tentei colocar o presunto no bagageiro mas o presunto era muito pesado.
Vi então um pick-up com lona de proteção na caçamba e achei que estava mais de acordo com os procedimentos médicos hospitalares. Meti o presunto na caçamba e fechei a lona.
De volta ao prédio, subi até a UTI, tava animado o negócio lá, todo mundo respirando por aparelhinho, bip prá lá, pipipi prá cá.
Fiquei uma meia hora acertando os botoezinhos, igualei todo mundo. Fiz lindos desenhos nas testas de todos. Nuns fiz corações, noutros estrelinhas, não desconsiderei ninguém.
Uma senhora bem fortinha me chamou com um sinal.
Cheguei bem perto, ela me perguntou:
-Como eu estou DR.?
Eu rsepondi em tom tranquilizador.
- A senhora esta deitada.
Resolvi que estava com fome e fui jantar no refeitório.
Entrei e o lugar estava mais animado que a UTI.
O assunto era a tentativa de sequestro do paciente agora acorrentado por ordem médica.
Fiquei sinceramente feliz de saber que meus procedimentos haviam surtido resultado.
Nisso vi uma sombra, mas podia ser um rato, não tive duvida, gritei:
- Um rato, ali, ali, ali....
Maior correria, desmaios, um tropeu danado até segurança apareceu no lugar.
Nada comi e voltei ao trabalho.
Encontrei mais pacientes e fiz anotações nas testas, tipo:
NECROTÉRIO
ESTREMA UNÇÃO
LIBERADO
JÁ ERA
AI MEU DEUS
SÓ UM MILAGRE
FINGIDO
NÃO DOÍ TANTO ASSIM
TRIPLICAR A DOSE
PODE TIRAR O GESSO
ESBANJANDO SAÚDE
LAVAGEM INTESTINAL
DEPILAÇÃO RADICAL
MUDANÇA DE SEXO
FORA DAQUI
IMPOSTOR
Depois de muito trabalho resolvi descansar, fui tirar um soninho dentro do tomografo.
Acordei na cadeia.
Pô, ninguém valoriza a profissão de médico.